terça-feira, 3 de junho de 2008

Era um prédio muito engraçado

Meu prédio, que nem nome tem, não poderia ser mais peculiar. Não pela construção em si – nada de símbolos nazistas arrancados ou camuflados, histórias de uma cave repleta de terror ou esconderijos de judeus – que, integrada em uma Berlin eternamente em reforma, foi erguida nos anos 80 em um bairro outrora conhecido como o bairro das viúvas dos nazistas. São seus personagens moradores que intrigam.

Alguns já figuraram aqui: tem a senhora quase sempre em lágrimas por causa de seus vizinhos, uns "latinos sujos"; tem o cara que toca Beetles no máximo de quinta a sábado; tem o sujeito com síndrome de Tourette que, até descobrirmos que ele tinha Tourette nos embasbacava com os seus "Fuck you, fuck you" berrados no meio da madrugada; tem a (péssima) cantora; tem uma infeliz que eu nunca sei se está rindo ou chorando (e a escuto mesmo morando 3 andares abaixo). Só para citar os mais ilustres, mas nem por isso os mais loucos.

Também alguns barulhos marcantes já nos assustaram em nosso pouco mais de um ano de residência: um choro angustiado que durou uma manhã inteira e então parou de repente, e até hoje não foi explicado; brigas e gritos semanais; britadeiras às 7:45 da madrugada manhã; um suicídio – e este, sério, atingiu o meu limite, eu quis me mudar. Mas o tempo passou, velas e flores não mais foram colocadas, nós viajamos, arejamos a cabeça e continuamos aqui.

O tempo também parece passar diferente apenas nessa área. Como a maioria dos prédios alemães, o principal não é a vista para a rua, mas para o jardim interno, palco de boa parte dos episódios que mencionei. E este mesmo jardim me fez pensar que todas as suas árvores estavam mortinhas e não mais floresceriam depois do inverno, quando mostravam galhos secos, quebradiços e nenhum folha sequer. Isso em uma sexta-feira, pouco depois do equinócio de primavera. Na segunda-feira, a surpresa que nos esperava quando saímos na sacada não poderia ser maior (ok, outro suicídio ganhava, mas eu realmente espero não passar por isso novamente): todas, todas as árvores estavam cheias, carregadas de folhas. Magia, provavelmente. Por que eu nunca vi nada florescer tão depressa e em tamanha quantidade em 3 dias.

E, desse mesmo jardim, partiram gritos no último sábado: Polizei, Polizei! Apuramos os ouvidos e nos demos conta de que era o Hausmeister gritando sem parar Polizei, Polizei!

Enquanto o Vinny pegava o telefone e eu pesquisava o número da polícia na internet, alguém vai até sua sacada e avisa que já havia ligado, a polícia estava a caminho. Moradores dos prédios vizinhos apareciam nas sacadas e uma pessoa desceu para ajudar o Hausmeister, que mudara seus gritos para Dreizehn Jähre, Dreihzen Jähre! Treize ans! (nosso Haumeister é francês, um luxo para o prédio e uma sorte para um casal cuja metade fala alemão e a outra francês).

Eu também fui para a nossa sacada. Neste momento, meu olhar se cruzou com o do Vinny e um diálogo mental se iniciou: O que você está fazendo? Sai daí, Silvinha, vai que você leva um tiro! / Que tiro o quê, a gente tá na Alemanha e não é nenhum atentado terrorista… / Unh… (o Vinny então cruza os braços, balança a cabeça e segue para a sacada).

Em menos de 5 minutos, a polícia chegou. No mínimo 6 policiais entraram sorrateiramente pela entrada da garagem, com lanternas e armas em punho. Da nossa vista privilegiada, parecia coisa de operações especiais, faltou apenas o helicóptero. Tudo isso para prender um pivete de 13 anos que estava tentando roubar uma bicicleta. Skandal! Mas não durou nem outros 5 minutos. O piá foi preso e levado, as sacadas se esvaziaram e o Hausmeister voltou para a casa dele. Nada de aglomeração e tititi no local do delito.

O prédio, apesar de alguns moradores bizarros, é bastante seguro – para os padrões alemães. Claro que, como brasileiros, já havíamos visualizado diversas possibilidades de assalto, invasão, arrombamento. Mas isso não foi nem cogitado pelos trabalhadores que estão reformando o estacionamento vizinho e deixaram uma passagem óbvia para algum mal-intencionado entrar.

E com um marginalzinho de 13 anos tentando roubar uma bicicleta é que eles se chocam. Ainda temos muito o que aprender.

3 .000 disseram alguma coisa:

Natália disse...

Hehehehe, no minimo engraçado , Silvinha! Se fosse aqui no Brasil, um menino de 13 anos robando bicicleta, era fichinha, rs.

Bjus

Banana disse...

ai, quero fugir prai! vc me abriga?

Silvinha disse...

Banana, vc leu a notìcia da velhinha que morava escondida em um apartamento no Japão, escondida num closet? Então, alugo uma parte do nosso baratinho, baratinho... X)